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quarta-feira, 23 de julho de 2008

Cartas

Apesar de toda a modernidade, o Correio ainda existe. O que chega a ser quase engraçado, as cartas estão se tornando cada vez mais extintas. Modernidade. Agora a internet tomou conta de tudo; as pessoas se comunicam por e-mail, batem papo on-line, até pagam conta e pegam extrato pela internet, procuram telefones e endereços (e acham!) e velha e famosa cartinha também virou virtual, virou e-mail. Ao mesmo tempo que a internet conecta milhares de pessoas, também as desconectam. Tem gente que mora na mesma casa e se comunica por chat, cada uma em um cômodo. E é de se concordar que internet nos rouba um tempo enorme, ninguém senta rapidinho no computador. Por e-mail passam piadas, mensagens enormes de power-point com música ao fundo, as últimas novidades e muita, mas muita mesmo, propaganda - o famoso spam. Pra quê pagar e esperar até um mês pra enviar e/ou receber cartas? E saber o CEP é um sufoco. Basta acessar o e-mail, digitar (tem gente que a letra de forma está até ficando deformada) e um click pra outra pessoa do lado do mundo, ou do outro lado da rua, receber. O mesmo procedimento e a resposta chega. Questão de minutos. Claro que conforto é muito bom, mas há quem sinta saudade das cartas e a surpresa de ser lembrado na caixa de correio é melhor do que a de abrir sua caixa de e-mail e piscarem mais de 50 e-mails não lidos. Sendo que metade discarta-se e muitos levamos dias pra ler, pra responder então... demora-se tanto pra responder que se o destinatário estivesse esperando o carteiro.
Às vezes me pergunto o que seria dos Beatles se tivessem que escrever "Mr. Postman" (senhor carteiro) atualmente, provavelmente seria conciderada uma música cafona, pois hoje em dia liga-se pro técnico do provedor desesperadamente, é como se o mundo sumisse porque caiu a conexão. Enquanto isso, o carteiro percorre as ruas entregando o que ainda não virou digital. Qualquer dia as agências de correio serão só para pacotes?
Uma vez uma amiga me mostrou um site para correspondência com presidiários nos Estados Unidos da América. Eles não têm acesso a e-mail, talvez se tivessem, muitos até escreveriam porque é mais fácil e prático. Afinal não é necessário colocar seu nome verdadeiro, nem o endereço no envelope. Mas eles estão lá torcendo e esperando por uma carta, um pedaço de papel que traga alguma distração, se comunicar com alguém e sentirem que estão vivos, que alguém se importa. Incrível o bem que uma carta, uma simples carta escrita à mão, com o selo postal pode fazer.


Ps: Em homenagem ao final da greve dos Correios.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Para sempre

Comecei a mexer naquela velha caixa de sapato. Há muitos anos de histórias lá dentro, alguns papéis já remendados de tanto serem lidos e dobrados, alguns, escritos a lápis, já falham as letras. Tantas cartas, tantas memórias... alí dentro encontrei lembranças boas, dei risadas, também as que me fizeram chorar. Reli sobre o que escrevemos sobre amigos, pessoas que já até tinha esquecido que existiam. Enfim, memórias. Eu nunca tive o hábito de escrever cartas, na verdade gosto delas, mas não me concidero bom escrito. Adorava receber as cartas dela, cada envelope na caixinha do correspondência no meu nome e eu entrava em êxtase, sabia que seria dela. Morávamos longe, e as cartas nos mantinham tão perto, tínhamos os mesmos sentimentos, pensávamos igual em relação a muitos assuntos. Nossas cartas eram enormes e foi por ela que escrevi tantas páginas. Foi minha melhor amiga, esteve comigo em momentos que precisei, dividiu minhas tristezas e sentimentos que jamais contei a qualquer outra pessoa, ninguém entenderia, só nós dois, éramos diferentes, e, naquele papel, era o nosso mundo e nada mais importava. A saudade é imensa toda vez que abro essa caixa, toda vez que penso nela. Tanta história, tanto passado, tantos sonhos na prateleira. Eu queria tê-los transformado em realidade, fugir do mundo, de todos, afinal sentíamos como os únicos no mundo que entendiam um ao outro, éramos como uma mesma alma em corpos separados. Doce inocência e ingenuidade, éramos ambos muito jovens e tínhamos verdadeiro amor e ainda puro um pelo outro. Ela era a rainha dos meus sonhos e as cartas e os momentos com ela valiam tudo pra mim. Eu queria ajudá-la e ela dizia que o fato de eu estar alí já era o necessário, a fazia rir, eu a compreendia, partilhava sentimentos e ela dizia que não havia ninguém no universo tão maravilhoso quanto eu. Arrumei as cartas dela por data, nunca consigo chegar a ler a última. Sou mesmo muito emotivo para saber lidar com a saudade de tudo que ela foi e sempre será pra mim. Prefiro parar nas linhas do agradecimento e que sempre terei meu lugar guardado ao lado dela, seja onde e quando for. Anos depois, eu ainda sonho com ela toda noite, ainda falo com ela e a vejo, perdido em momentos que se misturam com o que aconteceu e como seria hoje, desde a última carta que voltou, acompanha por um bilhete não escrito por ela. Ela só queria ser feliz, livre, acabar com aquele martírio. E então ela se foi.