Comecei a mexer naquela velha caixa de sapato. Há muitos anos de histórias lá dentro, alguns papéis já remendados de tanto serem lidos e dobrados, alguns, escritos a lápis, já falham as letras. Tantas cartas, tantas memórias... alí dentro encontrei lembranças boas, dei risadas, também as que me fizeram chorar. Reli sobre o que escrevemos sobre amigos, pessoas que já até tinha esquecido que existiam. Enfim, memórias. Eu nunca tive o hábito de escrever cartas, na verdade gosto delas, mas não me concidero bom escrito. Adorava receber as cartas dela, cada envelope na caixinha do correspondência no meu nome e eu entrava em êxtase, sabia que seria dela. Morávamos longe, e as cartas nos mantinham tão perto, tínhamos os mesmos sentimentos, pensávamos igual em relação a muitos assuntos. Nossas cartas eram enormes e foi por ela que escrevi tantas páginas. Foi minha melhor amiga, esteve comigo em momentos que precisei, dividiu minhas tristezas e sentimentos que jamais contei a qualquer outra pessoa, ninguém entenderia, só nós dois, éramos diferentes, e, naquele papel, era o nosso mundo e nada mais importava. A saudade é imensa toda vez que abro essa caixa, toda vez que penso nela. Tanta história, tanto passado, tantos sonhos na prateleira. Eu queria tê-los transformado em realidade, fugir do mundo, de todos, afinal sentíamos como os únicos no mundo que entendiam um ao outro, éramos como uma mesma alma em corpos separados. Doce inocência e ingenuidade, éramos ambos muito jovens e tínhamos verdadeiro amor e ainda puro um pelo outro. Ela era a rainha dos meus sonhos e as cartas e os momentos com ela valiam tudo pra mim. Eu queria ajudá-la e ela dizia que o fato de eu estar alí já era o necessário, a fazia rir, eu a compreendia, partilhava sentimentos e ela dizia que não havia ninguém no universo tão maravilhoso quanto eu. Arrumei as cartas dela por data, nunca consigo chegar a ler a última. Sou mesmo muito emotivo para saber lidar com a saudade de tudo que ela foi e sempre será pra mim. Prefiro parar nas linhas do agradecimento e que sempre terei meu lugar guardado ao lado dela, seja onde e quando for. Anos depois, eu ainda sonho com ela toda noite, ainda falo com ela e a vejo, perdido em momentos que se misturam com o que aconteceu e como seria hoje, desde a última carta que voltou, acompanha por um bilhete não escrito por ela. Ela só queria ser feliz, livre, acabar com aquele martírio. E então ela se foi.